Faço este texto recém-chegada a Mônaco para uma viagem de três dias, hospedada no luxuoso Hotel de Paris. Um sonho. Isso depois de ter passado oito dias numa das cidades mais fascinantes do mundo: a própria Paris. Sinto-me uma privilegiada por tantos programas e visitas incríveis que fiz por lá, por poder passear pela cidade pendurada num mototáxi, por ter acesso a tantos privilégios. Ao mesmo tempo, vejo o mundo desmoronando em volta, agora com fotos de Bill Clinton com várias meninas na ilha de Jeffrey Epstein: parece que esse pesadelo não vai acabar nunca mais. Enquanto isso, o Brasil padece debaixo de chuvas e de outras misérias humanas. Mônaco é uma ilha da fantasia, preservada, muito bem cuidada, com lojas sofisticadas, cassinos, carros esportivos, restaurantes e hotéis estrelados e segurança num nível máximo. Em Paris, vi refugiados pedindo esmola em alguns cruzamentos. Que mundo difícil de viver…
Ilustração: Maria Eugenia
A COMPLICADA QUÍMICA DA PRESSÃO
Tem um gesto confortável e cruel quando se assiste às Olimpíadas de Inverno do sofá, com a mantinha e a coragem alheia na mão, e conclui que quem falhou na hora H “amarelou”. Como se fosse falta de foco, ou de caráter, falta de treino, de força de vontade. A ciência, com uma delicadeza meio implacável, lembra que pressão não é metáfora. Pressão tem corpo. Tem peso. Tem química.
O estresse não fica comportado lá na cabeça, como um pensamento feio que se controla com boa intenção. Ele circula. Entra na corrente sanguínea. Age como coisa física, concreta, quase animal. E quando o alarme do “lutar ou fugir” dispara, o organismo faz escolhas que parecem traição. O cérebro entra em modo emergência e rearranja o mapa do sangue, como quem fecha ruas numa cidade em pânico. De repente, o corpo, que era instrumento fino, vira território estranho. A coordenação, que parecia natural, vira pergunta. Essa pane invisível tem nome técnico e efeito muito real: perda de propriocepção, a noção íntima de onde a gente está no espaço. Sem ela, o movimento fica menos nosso. Isso acontece muito no mundo dos esportes, das grandes competições. Mas não só nessas horas nem só nesses lugares.
Quem nunca travou numa reunião decisiva, tropeçou na própria fala numa apresentação, esqueceu um nome óbvio na hora de cumprimentar alguém, digitou errado uma mensagem simples porque o coração decidiu correr na frente? A vida cotidiana tem suas pistas de gelo. O nosso corpo também sabe cair. E, depois disso, vem o rebote: noites ruins, um circuito de ansiedade e aquele consumo tóxico de redes sociais que promete distração, mas só piora a “regulagem”.
E aí entra uma parte que dá vontade de guardar no bolso, como item valioso: existe antídoto. Não um truque mágico, mas sim um método. Uma educação do próprio pânico. Como alguns atletas de ponta, que depois de sofrer algum revés em alguma competição, chegaram à conclusão de que eles poderiam parar de tratar suas falhas como falhas morais e começaram a se tratar como um organismo. Um todo. A saída foi estudar a própria biologia. Entender o que acontece por dentro quando tudo parece desabar por fora. Aprender que respiração profunda e meditação conseguem acionar um freio, uma intervenção no cérebro que abaixa o volume do alarme. Transformar pânico em combustível com uma disciplina quase fria. Funciona.
Isso vale para qualquer pessoa que vive com o telefone como termômetro emocional. Às vezes, o gesto mais sofisticado é se retirar. Criar silêncio. Interromper a hemorragia de estímulos. Voltar para o próprio corpo, como quem volta para casa.
A gente olha para os atletas como se fossem deuses impecáveis, blindados. Mas o que existe ali, por baixo do uniforme perfeito, é um delicado coquetel químico tentando não explodir. Entender essa biologia interna e aprender a domá-la com o mínimo de método e o máximo de bom senso talvez seja a verdadeira sofisticação. No esporte, na vida, na rotina, no nosso gelo particular. Porque grandeza raramente é explosão. Ela é ajuste fino. Um corpo que volta a ser casa.
Olhando fora do umbigo / Fotos: Reprodução Instagram
O COLETIVO CONTEMPORÂNEO
Tem um tipo de tristeza muito específica em perceber que a nossa pressa poderia ter virado virtude. Eu li um texto na The Atlantic sobre gente jovem chegando às melhores universidades com o corpo ali, presente, mas sem fôlego mental para atravessar nem mesmo um livro inteiro.
Os professores descrevem uma cena que dá frio na barriga: alunos que entram em pânico diante de uma lista de leituras. Alunos que se desconectam quando a ideia pede mais camadas. Gente que passou o ensino médio se alimentando de resumos, poemas soltos e notícias. É como se a leitura tivesse sido transformada numa degustação: um gole aqui, outro ali. E nunca o prato principal.
A tentação é fazer aquele julgamento preguiçoso sobre essa tal geração que não quer nada. Só que um professor da Columbia desmonta isso com elegância: não é falta de inteligência. É falta de tempo, de foco, de sossego. A agenda deles parece uma mala de mão que não fecha. E aí, pedir que alguém passe 20 horas num romance denso, com calma, vira quase um ato revolucionário.
O que me pegou foi a mudança de valores: em 1971, 73% dos universitários diziam que a grande missão da faculdade era construir uma filosofia de vida significativa. Só 37% falavam em ficar ricos. Em 2015, o jogo vira: mais de 80% querem garantir o futuro financeiro. Menos da metade coloca esse lado filosófico como prioridade. É um gráfico que parece simples, mas é cruel. A gente trocou alma por currículo — e ainda chama isso de maturidade.
Quando a cultura inteira insiste que tudo precisa virar “competência”, “resultado”, “post no LinkedIn”, até o prazer mais silencioso passa a parecer suspeito. Ler um clássico, desses que exigem tempo e entrega, começa a ser visto como luxo inútil. Um capricho. Quase uma irresponsabilidade.
Só que é justamente aí que mora o perigo. A leitura longa não é enfeite. Ela é treino. É o lugar onde a cabeça aprende a sustentar complexidade sem desmaiar no meio. É onde a gente descobre que existem pensamentos que não cabem em parágrafo curto. Que há perguntas que só amadurecem quando você fica tempo suficiente dentro delas.
Talvez seja por isso que o TikTok tenha virado um refúgio: especificamente para a hashtag #BookTok — aquele cantinho da rede focado em literatura —, com jovens que nunca tiveram o hábito de ler e agora devoram dezenas de livros por ano e influenciam multidões a fazer o mesmo.
No fim, culpar os jovens é fácil. Difícil é admitir que fomos nós, como sociedade, que ensinamos a eles que produtividade frenética vale mais do que desenvolvimento humano. E aí a pergunta que fica não é “por que eles não leem?”, e sim “o que a gente andou fazendo com o nosso tempo?”. Porque uma vida inteira guiada pela planilha pode até dar status. Mas tende a empobrecer por dentro.
Teve uma época em que o ideal de mulher bem-sucedida parecia uma pessoa com duas telas, uma agenda militarmente cuidada e uma bexiga treinada para obedecer. Ali pelos anos 2010, a tal “girlboss” virou fetiche: trabalhar até doer era quase um certificado de valor. A promessa era simples, sedutora e meio cruel: aguenta firme, entra no jogo, conquista seu lugar à mesa. E, se você quebrar no caminho, a culpa é sua, porque você não “quis” o suficiente.
Só que esse sonho envelheceu mal. A Bloomberg descreve bem esse novo capítulo: a ambição feminina ganhou um nome que dá até um mal-estar: “feminismo do burnout”.
O luxo agora é desistir. Ou, pelo menos, dizer que desistiu. As estantes estão cheias de relatos de exaustão. Gente que cancelou compromissos para caminhar sem rumo e comer banana na cama. Gente que passou anos em startup vivendo no modo sobrevivência e descobriu, tarde demais, que o preço não era só cansaço. Era o corpo. Era a cabeça. Era o tipo de desgaste que vira insônia, úlcera, vômito escondido no banheiro, dor mastigada em silêncio, como se o trabalho fosse uma religião e a mulher, um sacrifício.
E ok, é justíssimo querer ar. É justíssimo querer vida. Só que, de repente, a conversa escorregou para uma estética do abandono. Surgiu a “lazy girl”, vendendo a ideia de que se importar com o trabalho é coisa de trouxa, e que o plano ideal é encontrar um emprego remoto que exija o mínimo possível. No outro extremo, reaparece a “tradwife”, com seu romantismo dos anos 1950 e a fantasia de que bater manteiga para fazer bolo em casa é um retorno espiritual, não um recuo social.
Tem gente decretando na internet que mulher com mais de 25 anos cumprindo jornadas das 9h às 18h é fracassada, porque não soube “lucrar” com a própria aparência ou com um casamento esperto. É um moralismo novo, totalmente bobo e com roupagem de trend. Um horror.
Mas, como sempre, a conta chega. Se antes o discurso era “seja tudo”, agora virou “não seja nada”. E nessa guinada, os números vão desenhando um cenário bem desconfortável: 80% dos homens em cargos iniciais querem promoção, contra 69% das mulheres. Quase meio milhão de americanas saíram da força de trabalho em oito meses. O fosso salarial voltou a crescer pela primeira vez desde a década de 60. E, como se não bastasse, programas de diversidade corporativos estão sendo desmontados. O mundo não espera a gente se cansar para decidir por nós. Ele simplesmente ocupa o espaço.
O detalhe mais irônico, e quase engraçado, se não fosse sério, é que até para “desistir” com estilo é preciso uma energia monumental. Escrever um livro sobre burnout exige disciplina. Construir um império de parcerias de marca fingindo ser dona de casa submissa exige estratégia. A ambição não desapareceu. Ela só mudou de roupa. Ficou mais discreta. Mais performática. Quase envergonhada. Como se desejar poder fosse feio, quando, na verdade, desejar autonomia é uma forma de amor próprio.
Talvez a gente esteja precisando resgatar o meio do caminho. Não aquela fantasia da mulher-maravilha que não dorme, mas também não o teatro da indiferença, como se trabalho não importasse e dependência fosse um descanso. A nossa independência custou caro demais. Custou tempo, suor, perda, luta. Não dá para devolver isso com um sorriso calmo e um filtro bonito. Dá para querer qualidade de vida sem abandonar a própria potência. Dá para querer descanso sem romantizar a rendição. E dá, sim, para querer um lugar à mesa, mas sem achar que a mesa tem que virar altar.
Abastecendo a cabeça / Fotos: Reprodução Instagram
O NOVO PRAGMATISMO
Quem nunca abriu o guarda-roupa, encarou aquela multidão de opções e pensou: “não tenho nada para vestir”? Aí vem a ironia em forma de dado: o consumidor médio americano compra 68 peças de roupa por ano. Sessenta e oito. E, mesmo assim, segue dizendo “não tenho nada”. O relatório do instituto Hot or Cool, em Berlim, resolveu estragar a festa e simplificar a vida com sinceridade matemática: se a gente quer ficar minimamente alinhado ao Acordo de Paris, o número tolerável seria cinco peças novas por ano. Pois é.
Teve gente que foi testar se isso era possível e contou ao The Guardian que o inesperado aconteceu: em vez de sofrimento, veio uma espécie de diversão. A pessoa não comprava. Ela circulava. Alugava, trocava, remendava. Como se a roupa voltasse a ter uma história, não um reflexo automático do cartão de crédito passando. Ela entendeu: o desafio não era ser virtuosa, era ser criativa, ter glamour sem colecionar. O que mais me pegou nessa experiência não é a penitência. É o jogo mental. O jeito como, sem a válvula de escape da compra, a gente é empurrado para soluções que estavam ali, escondidas atrás do excesso. Teve gente “pegando emprestado” o blazer do marido. Teve gente tingindo roupa antiga de preto e sentindo como se fosse nova. Teve gente descobrindo a felicidade muito específica de um aparelhinho elétrico que tira bolinhas de tricô, essa coisa quase terapêutica de ver a peça voltar a ter cara de dignidade.
Claro que dói onde a cultura do consumo mora: na dopamina. Aquele alívio instantâneo que a gente compra sem nem perceber que está comprando alívio, e não roupa. É aí que o experimento fica sério. Porque, num mundo em que marcas despejam milhares de novidades por dia, não comprar deixa de ser “falta” e vira posição. Quase um pequeno ato político. Uma micro greve íntima.
E tem outro efeito colateral que acho precioso: quando você não corre atrás da trend da semana, você é obrigado a encarar uma pergunta meio esquecida: qual é o meu estilo, afinal? O meu, de verdade?
A matemática é cruel, mas libertadora. A gente usa mesmo só 20% ou 30% do que tem. O resto é ruído, culpa, promessa pendurada em cabide. Talvez o luxo real, hoje, seja reduzir o volume para ouvir melhor a própria escolha. Cinco peças novas em doze meses? Não parece uma regra. Parece um espelho. Será que a gente aguenta?
Sabe aquela velha guerra dos sexos que a gente passou a vida inteira discutindo? Pois é, o jornal The Times publicou um estudo recente que mostrou que a batalha acabou, mas não teve festa nem comemoração. O que rolou foi uma retirada silenciosa: os homens simplesmente voltaram para as suas trincheiras para viverem sozinhos.
Uma pesquisa com jovens britânicos revelou que eles chegaram a um ponto de ruptura tão forte que quase a metade deles já pensa em desistir do amor para sempre.
Os números são duros e ao mesmo tempo reveladores: 40% dizem que não estão mais dispostos a fazer mudanças e concessões que um relacionamento de longo prazo pede. O resultado aparece nas ruas do Reino Unido e dos Estados Unidos também, com recordes de solteiros em todas as idades. Só que não é uma solteirice leve. Um quarto desses homens acredita que ninguém vai se apaixonar por eles. E dois terços sentem que a sociedade não liga para o bem-estar masculino.
Eu entendo o medo, entendo a dor. Mas também reconheço, com franqueza, o incômodo: historicamente, quem foi treinada para “dar conta” do emocional do mundo foi a mulher. Quem aprendeu, desde cedo, a negociar clima, cuidar de laço, aparar aresta, traduzir silêncio, fomos nós, as mulheres.
Alguns psicólogos apelidaram isso de “musculatura do relacionamento” atrofiada. Eu gosto da imagem porque ela carrega uma responsabilidade: músculo se constrói com treino, repetição, desconforto. E não é por acaso que tanta gente chega à idade adulta sem esse preparo. A tempestade perfeita está aí: pressão financeira, isolamento, mais horas na internet, mergulho nos aplicativos de namoro. E, de repente, o convívio real passa a parecer um esporte radical. O problema é que uma relação não se sustenta com alguém que só topa estar presente quando tudo é fácil, certo?
E nesse cenário, esses homens afirmam que as expectativas das mulheres estão altas demais. Curiosamente, quase metade das mulheres concorda. Mas às vezes isso significa querer respeito, parceria, cuidado, presença, responsabilidade afetiva. Significa não aceitar ser mãe de homem adulto. Significa não querer viver em torno do humor do outro, como se isso fosse o clima oficial da casa.
Quando perguntados na pesquisa sobre o que é “ser um homem”, marcas da velha masculinidade tóxica ficaram no fim. O topo foi dominado por respostas bonitas: ser amigo, ajudar quem precisa.
Eu entendo que existe uma transição difícil, e ela dói mais para quem estava acostumado a não se adaptar. As mulheres mudaram muito. Foram empurradas a mudar. Construíram vida própria, limites, ambições, redes. E isso elevou o padrão do que se aceita dentro de uma relação. Não é crueldade. É sobrevivência. É uma recusa em voltar para um lugar onde o amor vinha com um preço alto demais.
Só que eu também não romantizo o outro lado dessa virada. Porque o mundo, hoje, é inóspito até para os homens que querem mudar. Falta linguagem, falta exemplo, falta espaço seguro para a fragilidade que não vire chacota. Eles carregam a herança de um modelo que os ensinou a engolir tudo e chamar isso de força, e agora precisam aprender, na marra, algo que deveria ter vindo junto com a vida adulta: pedir, ouvir, ceder, cuidar. É um caminho que exige coragem e, muitas vezes, solidão no meio do processo.
Se existe uma retirada silenciosa, talvez ela não seja o fim do amor. Talvez seja o fim de um modelo de relacionamento que exigia que as mulheres fizessem o trabalho emocional por dois. Amor não é projeto solo. E talvez ele só volte a ter espaço quando homens entenderem que vulnerabilidade não é humilhação, concessão não é perda de poder, e parceria não é uma gentileza oferecida de vez em quando. Vamos?
O mês de março está aí e com ele começa o calendário agitado na cidade: exposições em galerias de arte, em museus, shows e concertos. De volta ao circuito cultural, escolhi uma pegada mais clássica ao fazer minhas escolhas desta semana no Iguatemi. Pode conferir aqui!
Na montagem acima, imagem do Theatro Municipal de São Paulo
1 - Ah, esse vestido da Prada… Quanta elegância e quanta sofisticação juntas…
2 - Esse clássico da Chanel surge agora numa mistura de couro com gorgorão: ficou mais chique ainda!
3 - Lenço que às vezes faz de xale? Os da Hermès são os meus preferidos… e ainda ajudam a enfrentar o ar refrigerado dos ambientes
4 - Uma leve nuvem com um dos aromas da Le Labo… O arremate perfeito. E o Thé Matcha é o ideal!
5 - A bolsa da Bottega Veneta dá um toque um pouco mais moderno ao look
Nesta semana, conversei com o arquiteto Marcio Kogan (fundador do Studio MK27) sobre trajetória, silêncio, perfeccionismo e o tempo necessário para construir o olhar.
Falamos sobre o filme que quase lhe custou o escritório, sobre viver em silêncio por anos e sobre como o tempo molda uma linguagem.
Teo Vilela fala de mobiliário moderno como quem fala de gente: com memória, biografia e uma certa reverência pelo tempo. Há 24 anos nesse mercado e há 18 à frente da Galeria Teo, em São Paulo, ao lado da irmã gêmea, Lis, ele aprendeu a olhar para cada peça como um documento. Não basta ser bonita ou assinada. Precisa contar de onde veio, por onde passou, quem viveu com ela, e, quando possível, provar isso com fotos de época e rastros materiais, num momento em que réplicas se multiplicam, especialmente no ambiente virtual. No fundo, a Galeria Teo funciona como um antídoto contra o apagamento: preserva, restaura e ajuda a manter de pé um patrimônio que, para sobreviver, vai precisar ser original, rastreável e muito bem cuidado. Uma referência no mercado paulista.
1. Qual a primeira peça que deixou você emocionado? Onde foi e como?
A mesa de centro do Martin Eisler, designer austriaco-brasileiro, de duas madeiras de tons diferentes, que se encaixam, é ainda a peça que mais me encanta. Com uma marcenaria extremamente sofisticada, ela tem corrediças e pés metálicos que a estruturam e permitem o encaixe e o desencaixe das ripas de jacarandá-da-Bahia e marfim, criando um jogo de cores. Para mim, até hoje é emocionante abrir e fechar essa mesa, que pertenceu a um amigo e colecionador que a adquiriu na Praça Benedito Calixto, onde, por coincidência, dei meus primeiros passos neste ramo. Temos a mesa há mais de 15 anos e recentemente adquirimos outras duas semelhantes, provenientes de residências no sul do país. Vale ressaltar que a raridade do mobiliário moderno e a frequência com que ele aparece na minha trajetória, por exemplo, são importantes indicadores para ficarmos atentos à proveniência e à originalidade das peças, pois estamos sendo vítimas de uma enorme produção de réplicas, principalmente no mercado virtual.
2. Qual é o seu critério principal: autoria, desenho, raridade, estado de conservação, história de procedência? E qual é a regra de ouro do restauro na sua galeria?
O critério principal da Teo é preservar a história de procedência, algo tido como incontestável quando devidamente documentado. Infelizmente, esse critério é o mais raro de ser alcançado, pois deve ser formalmente comprovado com fotos de época e outros documentos materiais, mas com certeza faz uma grande diferença quando o temos em mãos na hora de formalizar um selo técnico, pois essas provas atestam a origem e, por consequência, a originalidade da peça. Bem como os demais critérios, não menos importantes, também são sempre levados em consideração em todos os casos. Como um todo, o estado de conservação é o que menos me preocupa. Adoramos o desafio do restauro, pois contamos com uma equipe especializada de artesãos que o fazem com muito esmero e profissionalismo.
Na Teo, acreditamos que deixar falar o que o tempo fez é também contar a sua história. Tomamos todo o cuidado para o restauro preservar a pátina e a memória, sempre respeitando os processos e o tempo do móvel. Prefiro fazer uma intervenção profunda quando autorizado e solicitado pelo cliente.
3. O que você acha mais subestimado no mobiliário moderno brasileiro hoje? E se você pudesse “salvar” três peças do design brasileiro, quais seriam?
O Brasil, para além da sua riqueza natural abundante, é capaz de se reinventar seguidamente, aprender, encontrar soluções novas e, consequentemente, ser fonte de inspiração. Nosso mobiliário é muito difundido há mais de 30 anos, intensamente, no Brasil e mundo afora. Acho que ainda é subestimada a importância do trabalho dos milhares de artesãos e marceneiros que executaram esse mobiliário. Acredito que esse trabalho tão especializado deveria ser objeto de estudo para entendermos melhor quem foram essas pessoas, qual foi a formação, pois foram essas pessoas que garantiram o resultado como um todo.
Para salvar, teríamos que ser estritamente criteriosos e imparciais, pois, para além de eleger, teríamos que encontrar essas raridades originais. Sem dúvida, elegeria a icônica poltrona de três pés do Joaquim Tenreiro, algo raríssimo e especialíssimo, pois contempla a diversidade de madeiras brasileiras e, com um desenho original em sua simplicidade, é uma peça escultórica. Em segundo lugar, a cadeira de ferro da Unilabor, fruto de um trabalho de autogestão precursor no Brasil quando tocamos no assunto design. E, por último, a poltrona Vivi, do Sérgio Rodrigues, que mantenho em meu acervo pessoal. Nunca vi outra feita em jacarandá, apenas registros em desenhos e publicações antigas.
Conheci o espaço M19, um pouco fora do centro de Paris, onde se celebram os grandes artesãos dos grandes ateliês franceses, desta vez com a mostra “Tokyo to France”: que exposição maravilhosa
Circulei pelas ruas da cidade a bordo de um mototáxi conduzido com todo cuidado por Jeremie, que já conhecia de outras temporadas
Estava circulando de ônibus pelas ruazinhas de Saint-Germain quando vi Catherine Deneuve flanando pelas vitrines: ela mora no bairro
Visitei um dos museus que achei mais impactantes dos últimos tempos: a Fundação Cartier, que mudou há pouco e agora está perto do Louvre, num prédio maravilhoso reformado pelo arquiteto Jean Nouvel
Tomei um delicioso Kir — vinho branco com licor de cassis — no Café de Flore, meu clássico favorito em Paris, junto da Brasserie Lipp
Tirei uma selfie no Palais-Royal, igual todo mundo faz — que delícia
Confirmei minha presença no lançamento do livro “Mesas do Brasil”, de Francisco Campelo, a convite de Eliane Mauad e Vivian Gebara — com Fatima Scarpa, na quinta-feira (5), na Paper House
Soube que Daniela Schiller e Flávia Renault estreiam, no dia 3 de março, a 5ª edição da Radar Arte Contemporânea, no Palacete Stahl, em Higienópolis, com obras de 60 artistas e curadoria de Renato de Cara.
Reparei que o “efeito Ozempic” saiu do consultório e foi direto para a Faria Lima de Manhattan: Wall Street encolheu, e os alfaiates estão mais ocupados do que nunca ajustando ternos, já que quase 1 em cada 5 americanos testou GLP-1
Descobri que Lily Collins vai vestir a pele (e o pretinho básico) de Audrey Hepburn em um novo filme, com os bastidores da produção de Breakfast at Tiffany’s
Vi que o “quiet luxury” fez com que hotéis de alto padrão apertassem as regras contra filmagens estilo influencer em lobbies e restaurantes
Fiquei feliz por ter sido convidada para a estreia de Chay Suede em São Paulo, no teatro Cultura Artística, com direção de Felipe Hirsch
Fui conhecer finalmente o Le Grand Café no Grand Palais
Fiquei esperando ansiosamente o lançamento da coleção de JW Anderson em todas as Uniqlo da Europa
Visitei pela primeira vez a loja de chapéus Maison Ola — sou louca por adereços de cabeça
Assisti na TV à entrega dos prêmios César de cinema: impressionante como as atrizes francesas se produzem de uma maneira mais simples, da maquiagem até as roupas — chic sem qualquer over
Conferi pessoalmente a boutique sensação dos modernos especialistas em pijamas, a Rubirosa’s
Fiquei ensandecida com a estreia do estilista Demna na Gucci, com Kate Moss fechando o desfile
Passei uma semana de sol em Paris — dá para acreditar, em pleno mês de fevereiro?
Coloquei na agenda o lançamento do livro do músico Ari Borger sobre blues e a arte de ouvir: vai ser na próxima quinta-feira (5), no Terraço Notiê
Me programei para a estreia de Zeca Veloso com seu show “Boas Novas”, na próxima sexta (6) e no sábado (7) no Teatro Iguatemi
Ah, cheguei em Mônaco, no elegante Hotel de Paris: ah, a luz da Côte d’Azur…
Melody Gardot é uma cantora de jazz norte-americana com um jeito e um charme todo próprio. Aqui ela canta um clássico em francês , “C’est Magnifique”, composto por Cole Porter, que embalou meus últimos dias desta viagem entre Paris e Mônaco.
E aqui vai um aviso importante: todas as semanas recebo notícias que a newsletter não chegou ou foi parar no spam. Para reduzir isso, pedimos a gentileza de você adicionar o email da newsletter em sua lista de contatos ou verificar que é um remetente seguro. Isso faz com que sua plataforma de emails valide e você receba com tranquilidade nossas notícias todas as semanas. Conte comigo e continue mandando seus emails, leio e respondo a todos que posso. Seguimos juntos!