Esta semana eu não queria falar do ex-príncipe Andrew, preso para averiguações durante mais de 10 horas. Também não queria falar de todas as novas descobertas do caso Daniel Vorcaro, do banco Master, e do caso Epstein. Fiquei pensando na importância do Carnaval, na importância de não apenas trabalhar, mas também usufruir a vida, se divertir. Gosto dessas festas coletivas, acho que elas são fundamentais para a vida fazer sentido. Gosto dessa experiência de comunidade que existe nos desfiles das escolas de samba, onde o trabalho de todos é importante e juntos eles fazem a diferença. Gosto da sensação de ser apenas uma formiguinha no meio de um processo enorme que quando dá certo todos comemoram juntos. Quando assisto alguma apresentação de alguma orquestra penso exatamente nesse mesmo princípio: como cada um é importante no conjunto daquela obra imensa… Torço para que orquestras e escolas de samba nos inspirem. Acredito no trabalho das formiguinhas. Juntas, venceremos.
Todo cuidado é pouco… / Fotos: Reprodução Instagram
ACADEMIA DA ALMA
Imagine a cena: você decide ir até uma caverna no Novo México para tentar entender a sua própria consciência. Foi isso o que o escritor Michael Pollan fez, e contou num texto que li na The Atlantic. Ele é um escritor conhecido e ficou famoso por livros sobre experiências psicodélicas. A expectativa depois de uma experiência dessas é que role algum tipo de iluminação, dessas que a gente até gostaria de postar, de compartilhar — só que não. O caminho, segundo ele, foi bem menos fotogênico: foi ficar tão sozinho, tão entediado, tão exausto da própria companhia.
É desconfortável pensar fundo sobre a vida, dá trabalho como exercício físico. A gente foge das perguntas grandes pelo mesmo motivo que foge da academia. Dói um pouco na hora, exige constância. E sempre parece mais fácil ficar no raso, distraído, alimentando o cérebro com migalhas.
O que me chamou a atenção é essa proposta de tratar a contemplação como disciplina. Marcar na agenda mesmo. Não como “luxo espiritual”, mas como treino: pode ser meditação. Pode ser uma caminhada matinal. Sem celular. Sem rolar o feed. Só a gente e nosso pensamento, andando meio torto no começo, reclamando, querendo desistir, tentando negociar um atalho.
E aí vem a parte quase subversiva: trocar conversa fiada por conversa de verdade. Sair do small talk e se dar a chance do big talk interno. Porque encarar silêncio é sim tédio, hábito trabalhoso, mas que devolve alguma coisa que a vida barulhenta vai roubando aos poucos: profundidade. Coragem de parar. Coragem de olhar. Talvez esse seja o exercício mais vital destes tempos.
Ilustração: Maria Eugenia
ADEUS, VIDA TRANQUILA
A gente cresceu com essa ideia quase sagrada de aposentadoria: um ponto final elegante e sonhado, depois de uma vida inteira de esforço. A gente “pendura as chuteiras”, abre a mala, visita os netos, se dá ao luxo de acordar sem culpa, vai ao cinema de tarde num dia de semana. Só que esse modelo está sendo reeditado, e com um corte bem cruel: o jornal USA Today publicou sobre um fenômeno que diz muito sobre o nosso tempo — o custo de vida está empurrando uma geração de americanos para fora da aposentadoria e de volta ao crachá.
Nasceu até um apelido para essa turma que “desaposenta”: os “unretirees”. A palavra é feia, mas descreve direitinho essa sensação de prêmio cancelado.
E não é um ou outro: segundo números da American Association of Retired Persons (AARP) — uma entidade americana voltada a pessoas mais velhas, que acompanha de perto esse tipo de realidade —, um em cada dez aposentados trocou a lista de atividades de aposentadoria pelo relógio de ponto das 9 às 5. E o detalhe que desmonta qualquer romantização é o motivo do retorno: para quase metade, não foi propósito, nem “manter a mente ativa”. Foi falta de dinheiro mesmo. A vontade de socializar aparece bem depois, com só 14%. O resto é conta, conta, conta.
Hoje, quase um quarto da força de trabalho tem mais de 55 anos. Só que a Previdência Social por lá não chega nem à metade do salário médio e, quando os preços apertam, a poupança vira uma vela acesa em dia de vento.
O cenário ainda pesa mais em mulheres e solteiros. O pesquisador e economista do Boston College, Geoffrey Sanzenbacher, faz um alerta que parece óbvio e, por isso mesmo, assusta: quem mais precisa voltar é justamente quem tem menos reservas, e um mercado com contratações engasgando pode não ter espaço para todos.
O que está sendo esgarçado não é só um orçamento. É a ideia de “melhor idade” como território de escolha. O descanso, que deveria ser a recompensa legítima depois de décadas de trabalho, virou um luxo que muita gente não consegue mais atingir. E isso tem um gosto amargo de injustiça.
Enquanto isso, aqueles que conseguem se aposentar enfrentam um outro desafio: quando não fazer nada vira rotina, existe o perigo de se afundar sem perceber, como alerta o The Washington Post. Às vezes a vida vai ficando pequena, silenciosa, meio sem pulso.
Aí entra a parte que me interessa muito, porque não é só bonita, é prática. Um estudo de 2025 apontou que o voluntariado funciona como um anti-idade biológico. Aquelas ações de gente comum, sabe? Doar tempo. Dirigir para quem não pode. Visitar pacientes em hospitais, pessoas mais velhas em asilos. Cuidar da qualidade da água dos riachos. Tocar algum instrumento num grupo comunitário. Quem faz isso tende a envelhecer mais devagar no tal marcador epigenético, como se o corpo assinalasse uma outra idade. O coração fica mais forte. A pressão dá uma trégua. A cabeça segue acesa.
É uma troca: em vez de viver com o pavor da agenda vazia, a pessoa se arrisca na coisa mais rara de hoje, que é conexão real, verdadeira. Esses tipos de compromissos funcionam quase como um personal trainer da alma. E, aparentemente, do corpo também.
A pergunta é menos “como eu fico jovem?” e mais “para quem eu vou ser útil?”. Talvez o verdadeiro antídoto do envelhecimento não esteja no luxo do pote caro de creme hidratante e nem no retiro exclusivo. Está nesse gesto básico, meio esquecido, de se colocar no mundo e se dispor a ajudar, a ser relevante.
Ao se disponibilizar, as pessoas não estão apenas ajudando a sociedade a funcionar: estão se resgatando. O elixir da longa vida, pelo visto, não mora num produto ou tratamento caro. Mora numa decisão simples: sair de casa e ser útil para alguém.
Ilustração: Maria Eugenia
FORA DO SCRIPT
A gente adora acreditar que amor é uma transação bem-feita. A gente entra na loja com a lista na mão, confere o material, o tecido, mede a barra, pergunta a procedência, faz as exigências todas e sai com a sensação de que, seguindo o manual, não tem erro. Só que a vida tem um jeito todo próprio. E um prazer meio perverso em rasgar roteiro.
Li também na The Atlantic que às vezes a gente tem um checklist mais específico dos quesitos que não abrimos mão, só que o destino prega uma peça e nos faz encontrar algo de diametralmente oposto. Parece que a nossa lista de exigências é mais performática do que verdadeira.
E não é só romantismo: é ciência. Vários psicólogos alegam que a gente é péssimo em prever o que vai de fato nos atrair. A teoria é confortável porque dá a sensação de controle. Mas o desejo não responde bem ao formulário. Um estudo da Universidade da Califórnia brincou com isso de um jeito delicioso: colocaram pessoas em encontros às cegas e descobriram que elas ficaram tão contentes com pares que batiam com os próprios critérios quanto com aqueles que batiam com os critérios… de outra pessoa. Ou seja: você pode se apaixonar por um pedido que nem foi você que fez. Tudo leva a crer que o coração, aparentemente, também gosta de experimentar o prato da mesa ao lado.
O problema é que os apps mantêm as pessoas presas nesse mundo de requisitos, como se compatibilidade fosse uma peça pronta, lacrada, descrita em três linhas. Mas talvez compatibilidade não seja exatamente algo que se encontra num perfil. É algo que se constrói. Se cultiva. Se cria. No convívio, no tempo, no corpo presente, no “vamos ver”. É ali que a coisa ganha textura.
E aí entra um detalhe fascinante e um pouco assustador: quando a química acontece, o cérebro vira editor. Um elogio na hora certa, uma música favorita compartilhada, um dia em que você está mais aberto… e pronto: nasce o tal “viés de progressão”. A gente começa a reescrever o outro com carinho. A bagunça vira “espírito livre”. O defeito ganha moldura de charme. Uma pequena autoilusão, dessas bem humanas, que os pesquisadores sugerem ser quase parte do cimento que mantém a relação de pé. Não é que a gente se engane por ingenuidade. É que, às vezes, amar exige uma certa licença poética.
A recomendação que fica é menos “baixe seu padrão” e mais “saia da ficção do checklist”. Trocar a conversinha digital por vida real. Encontrar a pessoa pelo menos três vezes, em situações que criem conexão de verdade. Porque aquele perfil descartado por não ser “o seu tipo” pode ser exatamente a surpresa que você não estava esperando. E essa é realmente uma grande graça.
Os limites de beleza / Fotos: Reprodução Instagram; Istockphoto.com
A NOVA BATERIA
Lembra quando a gente aprendia, na escola, que a mitocôndria era a usina da célula? Pois essa palavrinha, que parecia condenada às provas de biologia, virou objeto de desejo. A mitocôndria saiu do microscópio e entrou no cardápio do wellness. E, claro, o mercado não perde tempo quando fareja ansiedade com cartão de crédito por perto.
Li no portal Vox que celebridades como Hailey Bieber e Gwyneth Paltrow, junto com a turma dos biohackers do Vale do Silício, decidiram que a fonte da juventude e da energia está agora ali, nesse pedacinho minúsculo dentro da gente. Resultado: biologia virou luxo. Tem injeção de NAD+, suplementos “do momento” e kits de testes caseiros que beiram 700 dólares, prometendo uma espécie de desbloqueio do “potencial celular”. A fantasia é irresistível: uma atualização de sistema. Um upgrade do corpo, como se a gente fosse um aparelho que começa a travar e precisa de manutenção premium.
Todo mundo querendo “mais energia”, “mais juventude”, “mais tudo”. A vida virou um painel de controle, e a sensação é que, se a gente apertar os botões certos, dá para driblar o tempo.
Só que a ciência, que é sempre a amiga sincera, pede calma. Sim, mitocôndrias saudáveis importam, e muito. Mas especialistas lembram que nem tudo o que reluz é saúde. Alguns pesquisadores são céticos: aquele soro de NAD+ na veia pode não fazer grande sentido se a molécula nem consegue entrar direito na célula. E os testes caríssimos? Também têm limite. Porque a mitocôndria do fígado não se comporta exatamente como a do cérebro. O corpo não é um condomínio padronizado, né?
Mas é a ironia que chama a minha atenção: o “elixir” mais consistente para as tais mitocôndrias não vem em embalagem bonita. Não custa uma fortuna. Não tem glamour de spa. É o exercício físico. É comer bem. É dormir. E até isso tem um detalhe: jantar muito tarde atrapalha porque força o organismo a lidar com glicose justamente quando ele queria descansar.
No fim, se essa febre mitocondrial servir para fazer as pessoas levantarem do sofá, colocar mais vegetais no prato e respeitar o sono, ótimo. Mas não precisa cair na armadilha da pílula mágica, nem no fetiche do teste de saliva como oráculo. O que faz bem para a célula é o que faz bem para a vida inteira. Equilíbrio. Bom senso. E um pouco menos de desespero por atalhos, tá?
Passou o Carnaval, as férias de verão chegaram ao fim, agora é hora de explorar as coisas boas que a cidade tem. Foi pensando nos museus e galerias de arte que eu fiz as minhas escolhas da semana no Iguatemi. Vamos?
Na montagem acima, imagem do MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand)
1 - Com esse look bem urbano da Framed, da Gallerist, a gente até celebra a volta à vida real
2 - Esses flats de Christian Louboutin são ideais para bater perna pelos corredores dos museus
3 - Esse colar de prata da Guerreiro arremata o look sem chamar demais a atenção
4 - Hidratação é vida: que tal carregar junto essa térmica da Le Creuset? Na Up+ Casa
5 - O que dizer dessa bolsa mega original da Ferragamo? Ai, que sonho…
Foto: Bob Wolfenson
3 perguntas para
Com certeza não foi à toa que o arquiteto paulistano Isay Weinfeld chega aos 50 anos de carreira como quem não faz discursos: ele faz corte seco. Nada de grandes teses, nenhuma vontade de “explicar” a própria trajetória. Na conversa abaixo, ele responde com a concisão de quem prefere deixar a obra falar, e com aquela habilidade rara de virar o jogo numa frase, surpreendendo sem esforço.
Isay construiu um percurso que sempre escapou de rótulos: arquitetura, interiores, design e cinema aparecem no seu trabalho como partes de uma mesma obsessão por atmosfera, ritmo e precisão. Ao longo dessas cinco décadas, assinou projetos que marcaram a paisagem brasileira e, em paralelo, abriu uma frente internacional robusta, atuando em vários países, várias cidades, endereços e clientes de altíssimo padrão, sem perder uma característica que o acompanha desde sempre: o gosto pelo inusitado. Isay não é o arquiteto da frase fácil nem da estética barulhenta, mas o da surpresa silenciosa, do detalhe que muda tudo, da decisão inesperada que parece inevitável — mas só depois que você vê pronta…
Esse cinquentenário vira também uma espécie de “making of” público na exposição Etcétera, no Instituto Tomie Ohtake, reunindo justamente essas muitas frentes que ele nunca tratou como compartimentos. Ah: somos amigos há mais de 50 anos, antes, portanto, dele se formar arquiteto. E ele já era esse gênio todo.
1. Qual a lição que você tira desses 50 anos de arquitetura?
Nenhuma
2. Levando em consideração todas as suas obras, seja arquitetônica, seja de cinema, o que você espera daqui por diante: qual é o desafio agora?
Espero continuar ativo e atuante.
3. O que você aprendeu sobre o ser humano lidando com todos esses clientes durante todo esse tempo?
Fui assistir no teatro Renault à “Ópera do Malandro”: uma volta no túnel do tempo e um espetáculo que merece ser visto. Amei!
Fiquei triste de não ter conseguido ir ao Rio para o Baile da Arara, organizado por Malu Barretto, e que este ano teve a presença de Sarah Jessica Parker vestindo Isabela Capeto
Vibrei, como todos os brasileiros, com o ouro nas Olimpíadas de Inverno conquistado por Lucas Pinheiro
Fiquei sonhando acordada com minha volta ao carnaval de Salvador no ano que vem: muito difícil ficar acompanhando de longe…
Estou tentando ver como eu faço para não perder a exposição de Lucian Freud em Londres
Me diverti com a cobertura da Globo dos desfiles do Rio: Mariana Gross, Pedro Bassan e Milton Cunha arrasaram!
Assisti aos três primeiros episódios da série “Love Story”, que conta a história de Carolyn Bessette e John Kennedy Jr: como é lindo tudo e como é triste…
Gostei da bolsa e da nova coleção da Loewe: mesmo mudando de estilista, continua tudo lindo
Fui tomar café com o artista plástico Júlio Villani, que mora em Paris e me foi apresentado por Ana e Mazzô França Pinto: foi no Charlô, no Pulso hotel
Vi a nova collab da Gap com o Nobu: eles lançaram uma mini coleção de essenciais, tudo preto, com tecidos mais premium e detalhes que fazem referência ao universo do sushi (até o logo brinca com a ideia dos hashis)
Ouvi falar pela primeira vez dos Glomads: viajantes que montam o roteiro em torno de tratamentos de beleza e procedimentos, com clínicas e dermatologistas virando atração principal — essa tendência de beauty travel só faz crescer
Não treinei uma vez sequer: por conta dos feriados, não tive aulas e ainda não consegui vencer a barreira de treinar sozinha
Comi o melhor pão na cidade de São Paulo num jantar com amigos no ICI
Aterrissei em Paris para uma viagem que une cultura, conhecimento e olho vivo: esta cidade é prato cheio
Acompanhei as torcidas e a votação das escolas de samba campeãs no Rio, mas também mantive um olho em São Paulo: como eu amo escola de samba!
Fiquei impressionada com o local inusitado da nova loja da Bode, uma das marcas mais inusitadas de roupa nos últimos tempos, agora em Tóquio
Descobri que aqui na França, cuidar de pets virou matéria na escola: crianças aprendem a reconhecer estresse, conforto e confiança nos animais, treinando responsabilidade e empatia desde cedo — gostei
Tropecei num dado meio indigesto: numa pesquisa feita com 287 japonesas casadas (entre 20 e 59 anos), 70% disseram que se arrependeram de ter casado
Assim como muita gente do mundo da moda, elegi meu sonho de consumo: essa bolsa Chanel, uma novidade maravilhosa criada pelo novo estilista da marca Matthieu Blazy
Não consegui estar presente na abertura da exposição “Retrato de Manifestante”, de Roberto Setton, no Espaço Cultural ºAndar — mas já deixei anotado para quando eu voltar
Acompanhei todos os detalhes da prisão do ex-príncipe Andrew: achei interessante todo o processo, a posição na família real e a postura da polícia da Grã-Bretanha
Soube que a Kobbi Gallery vai levar à Leica Gallery, em Frankfurt, a exposição “Modernidade! Fotografia do Brasil (1940–1960)”, com nomes ligados ao Foto Cine Clube Bandeirante — que marcaram a fotografia moderna no país — entre eles Nelson Kojranski, Gaspar Gasparian e German Lorca
Fiquei apaixonada em Paris com a vitrine de Saint Laurent com essa jaqueta de couro preto — uma coisa Jane Birkin…
Assim que cheguei, fui direto para um café e pedi uma baguette jambon fromage — um misto frio de sonho
Embalada por esses dias que estou passando em Paris, escolhi uma canção que virou hit mundial depois que foi gravada em inglês por Frank Sinatra: My Way. A original é deste francês, Claude François. A versão original não ficou tão conhecida como a versão norte-americana, mas que não deixa de ser maravilhosa: Comme d’Habitude.
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